Quando o calendário deixa de ser certo, as coisas estão erradas.
O adiamento do início do próximo ano letivo foi apresentado como uma medida para responder aos atrasos provocados pelo processo de classificação dos exames nacionais. À primeira vista, pode parecer apenas um ajuste de calendário ou mais uma semana de férias. No entanto, quando deixamos o olhar superficial de lado, percebemos que esta decisão revela um problema muito mais profundo.
O calendário escolar existe para dar previsibilidade a alunos, professores e famílias. É a partir dele que se organizam aulas, férias, matrículas,
concursos, colocações e o próprio funcionamento das escolas. Quando esse calendário precisa de ser alterado para acomodar falhas do sistema, deixa de transmitir estabilidade e passa a refletir a incapacidade de um ministro e a sua desorganização em responder atempadamente aos desafios que surgem.
Falei com alguns professores meus e o testemunho foi quase todo o mesmo: continuam a corrigir exames numa altura em que muitos já tinham férias marcadas ou planeadas.
As secretarias prolongam o trabalho administrativo. Os alunos do ensino secundário vivem mais dias de incerteza enquanto aguardam classificações, reapreciações e decisões sobre o acesso ao ensino superior.
O adiamento do início das aulas pode aliviar momentaneamente a pressão, mas não elimina as causas que levaram a esta situação.
Mais do que discutir se as aulas começam uma semana antes ou depois, importa questionar porque é que foi necessário alterar um calendário que, à partida, deveria ser estável. Quando as soluções passam por adiar prazos em vez de resolver os problemas que os originam, é legítimo perguntar se estamos apenas a ganhar tempo.
Já para não falar no efeito dominó que esta situação traz consigo. Se o início é adiado, também é o fim.
Um sistema educativo inspira confiança quando consegue cumprir aquilo que promete. Se até o calendário escolar deixa de ser previsível, isso não é apenas uma alteração logística: é mais um sinal de que algo no funcionamento do sistema precisa de ser repensado.
Madalena Claro (ESIDM)