Crónica de uma Viagem a Mérida
Eram 07:15 (sim, estas coisas começam cedo) quando nos encontramos em frente ao Dona Maria, (“Dona” para os amigos). Pessoalmente, estava à espera de alunos sonolentos e silêncio de manhã cedo… (oh, ingenuidade). Entre conversas eufóricas, mochilas espalhadas e expectativas de não ter aulas durante dois dias, ninguém deu importância às indicações do pobre estagiário que, humildemente, limitou-se a contar as cabeças presentes. 07:30, aproxima-se o nosso transporte, um Scania branco com espelhos retrovisores azuis da empresa Viagens Conímbriga (até o autocarro era romano), veículo que, depois de muitas lágrimas, foi-nos financiado pela Direção da FLUC, pelo Departamento de Línguas e Culturas e pelo Gabinete de Apoio ao Estágio, tudo para que os participantes pagassem só 30 euros (e gastassem dinheiro em regalitos). Chegado o momento de embarcar, a experiência da professora Margarida (como pastora de um rebanho com défice de atenção) alinhou ordenadamente os participantes. O nosso motorista, o Sr. Fernando, apresentou-se com a serenidade de incontáveis visitas de estudo, não havia nada de novo ali para ele.
A paisagem passava por nós, familiar a princípio com os pinhais da Beira Alta, depois os planaltos largos da Beira Baixa, finalmente os penedos rochosos de Vila Velha de Ródão e, lá em baixo, o Tejo, que por ali nem parece ser Tejo. Antes de chegar à fronteira, o sr. Fernando sugere-me que avise o grupo que estávamos a passar pela aldeia de Marvão, e realmente, no alto da montanha, com o castelo recortado contra o céu e as muralhas a abraçarem o casario branco, era uma vista a registar. Agarro o microfone: “Podem ver à vossa direita a bela localidade de Marvão…”, “À esquerda!”, corrigiu o Sr. Fernando, “À vossa outra direita…” (contado assim não parece, mas teve piada). A certa altura, já perto de Espanha, a vegetação começou a baixar, o horizonte a esticar-se, e todos percebemos que estávamos a entrar em outra geografia.
A primeira impressão de Cáceres foi a vegetação luxuriante dos jardins a cortar o ocre seco dos edifícios. Qualquer rotunda, qualquer separador na estrada era densamente ocupado por grandes árvores e plantas bem fertilizadas (no meu pensamento tosco só me ocorreu a quantidade de estrume que o ayuntamento usa). Almoçamos o que tínhamos trazido de casa (obrigado pela sandes de frango, Bia!) e exploramos o centro histórico. O grupo dispersava-se e voltava a juntar-se como átomos aleatórios de um fluido primordial, animados pelos altos níveis de açúcar no sangue (embora parecessem reformados a sentar-se de vinte em vinte metros: “O quê? Temos de subir aquelas escadas?!?”). Cada telemóvel com 1200 fotos de monumentos que estão disponíveis no Google, 470 selfies e 130 imagens de panquecas riscadas de chocolate (Vê-se logo que sou do tempo Kodak, rolo de 24 fotografias, sim, porque 36 era ostentação), mas valeu aquela foto do gato branco à janela. A Camila a perguntar: “Stôr, e agora? Para onde vamos?”, Camila, a partir de agora és tu a guia, decide o caminho que nós seguimos-te como patinhos. O Zé Pedro foi adotado pela turma. As meninas vinham mostrar os regalitos que tinham comprado e eu,tentava não revirar os olhos a cada inutilidade com o nome da cidade.
Mas o nosso destino era Mérida e foi ao fim da tarde que nos instalamos no Hostal,Emeritae, onde fomos recebidos pelas leis da hospitalidade dos tempos antigos: um check-,in rápido (excepto para aqueles ciosos da proteção dos seus dados – fazem muito bem,,para quê confiar em alguém que vocês já conhecem há anos?), quartos limpos e arejados,,impecáveis até, daqueles que nos recebem com os seus pacotinhos individuais de sabonete,e toalhitas, alinhados como pequenos soldados higiénicos (deixemos a crítica para os fãs,de Fight Club). Na hora de jantar o grupo voltou-se a dividir, prerrogativa da liberdade.
Como alguns já tinham professor atribuído (o grupo das tapas, do queijinho na tábua e das,rodelas de chouriço de porco preto) coube-me a equipa Burger King. Mehercle! Ainda hoje,estou enjoado daquele molho das batatas… o ponto alto foi mesmo a Amália a passar pelos,tubos do parque infantil e fazer amigos de cinco anos.
Chegou o momento de fazer uma confissão, correndo o risco de não ser jamais perdoado pelos alunos: no alojamento avisaram-nos que poderíamos entrar a qualquer hora da noite, mas nós dissemos que a hora de entrada teria de ser às 22:30. Paciência, perdeu- se as desilusões da noite espanhola, mas ganhou-se horas de sono (e tranquilidade para os professores). Digo isto como se não tivesse passado a noite acordado, a tentar encontrar o meu caminho nos corredores do hospital de Mérida, uma aventura inesperada que acabou por ter um final feliz. Espero que a aluna que se sentiu mal já esteja melhor e muito agradeço a outra aluna, que por acaso era de Medicina, e a acompanhou naqueles dias.
Seja como for, por não termos conseguido um táxi de volta, tivemos de vir a pé de madrugada e passamos a ponte Romana sob a lua cheia, três almas ensonadas, uma delas anestesiada e medicada. De manhã acordei com a seguinte conversa no grupo de Watsapp que transcrevo abaixo:
[07:26, 22/04/2026] Camila: “Bom dia, alguém sabe se o pequeno almoço vai ser para tomar cá no hotel, ou vamos sair algum lugar ?”
[07:34, 22/04/2026] Lorenzzo: “Também me preocupa tal querela.”
[07:34, 22/04/2026] Lorenzzo: “Muitíssimo bom dia.”
[07:35, 22/04/2026] Ana Sousa: “lorenzo oque seria querela?”
[07:37, 22/04/2026] Lorenzzo: “Há muitos significados. Todavia, utilizei o mesmo como sinônimo de problema filosófico, tal como enunciariam os medievais: ‘querela dos universais’.”
[07:38, 22/04/2026] Pipa: “São oito da manhã”
[07:38, 22/04/2026] Pipa: “Calma”
[07:38, 22/04/2026] Pipa: “Vamos respirar fundo”
Assim é que é Lorenzzo, o que esse pessoal precisa mesmo é da “querela dos universais” às 07:38, apoiado!
Tínhamos um programa para cumprir naquela manhã e, no Museu Nacional de Arte Romana, fomos acompanhados por duas guias sapientíssimas (10º H, façam a revisão do superlativo, vai sair no teste). Conduziram-nos por mosaicos, esculturas, objetos do quotidiano e histórias sobre a romanização da Lusitânia. Explicaram-nos como Mérida foi capital provincial, como se organizava a cidade, como se vivia, como se rezava, como se governava. E, sobretudo, como tudo aquilo chegou até nós graças a um esforço contínuo de conservação arqueológica que faz de Mérida memória sob os astros (fascinante e em espanhol).
À entrada das ruínas deparamo-nos com a tarifa de 8 euros por cabeça, mas quis a providência que os “universais” estivessem do nosso lado e, nesse momento crucial, recebemos a caução paga ao alojamento e o grupo pôde visitar as famosas ruínas (e a viagem ficou a 30 euritos por pessoa… fica a dica). O Teatro, com a sua fachada monumental, ainda hoje parece pronto para receber uma comédia de Plauto (não Platão, Ana). Muitas bancadas para se sentarem, que esta geração nasceu cansada. A Pécsen descobriu uma nespereira que nos alimentou até chegar o segurança (boa, Pécsen!).
Almoçamos e despedimo-nos de Mérida, afinal ainda nos falta visitar Badajoz. onde o grupo passeou pelo centro histórico, entre a Alcazaba, as praças amplas e a mistura de estilos que caracteriza a cidade. Pelo menos alguns tiveram essa experiência, outros nem sequer se moveram do espaço de desembarque, outros, porém, andaram pela cidade à hora da siesta à procura de um geladito (eu era um deles), esses tiveram o privilégio de conhecer o Iago, um weimaraner de 50 kgs, campeão de concursos de beleza canina em Portugal.
Ao passar a fronteira, o Sr. Fernando, num gesto patriótico, pôs a tocar o Hino Nacional. O público não foi recetivo, fosse Dua Lipa estariam todos a cantar e a dançar (revirar de olhos julgador).
Chegámos a Coimbra dentro da hora prevista, cansados, mas citando o Telson:
[20:25, 22/04/2026] Telson: “Quem vota a mais road trips?”
Pelo estagiário,
Fábio Mordomo
Comentários
Enviar um comentário